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Ubirajara da Silva

O professor Ubirajara da Silva, que faleceu aos 71 anos no dia 30 de agosto último, é um personagem especial na história da Faculdade de Comunicação (FAC) da Universidade de Brasília . Sua trajetória de vida foi construída na escola em que ingressou como estudante de Jornalismo, em meados dos anos 1960, até aposentar-se como professor das disciplinas de rádio, com passagem marcante pela direção da faculdade. Nessas décadas de dedicação à FAC, escreveu capítulos decisivos do percurso da instituição, que completa seu cinquentenário neste ano.   

“Todos têm alguma coisa para contar de especial sobre o Bira”, comentou a professora Zélia Leal Adghirni, ainda sob o impacto da notícia de sua perda. O professor Murilo César Ramos lembrou-se da conversa que teve com ele sobre a participação na mesa que tratará da memória da faculdade, no âmbito das comemorações marcadas para este e o próximo ano.  Amante da ficção científica, Ubirajara mencionou a bela frase do roteiro de Blade Runner – “Tudo o que vivi vai se perder como lágrimas na chuva” - para destacar que, ao revisitar a história acadêmica, não se cumprisse o destino do trágico androide do clássico do cinema.

A qualidade do ouvinte paciente e atento, em meio às discussões acaloradas, foi lembrada pela professora Nélia Bianco ao reconstituir sua experiência na universidade. “Com ele aprendi que em momentos complicados é preciso buscar na forma de organização da instituição, no seu estatuto e regimento, os instrumentos para agir”, disse. O “sentimento de respeito ao Bira” foi externado pela professora Dione Oliveira Moura, que também o situava como um dos personagens centrais nas comemorações dos 50 anos da FAC.

Em suma, como destacou Clodo Ferreira, a morte de Ubirajara da Silva significou “a perda de um grande amigo, que teve uma importância enorme para a história da nossa faculdade”. O jornalista e sociólogo Venício A. de Lima dedicou um artigo emocionado ao “acadêmico diferenciado”, que fica para sempre na memória da UnB. A íntegra do texto divulgado originalmente na edição de 4 de setembro do site Observatório da Imprensa está a seguir.

“Qualquer aluno, funcionário ou professor que teve algum vínculo com o curso de Comunicação Social da Universidade de Brasília desde a sua criação, em 1963, até o início dos anos 2000, necessariamente conheceu Ubirajara da Silva.

Bacharel em uma das primeiras turmas do curso de Jornalismo (segunda turma, de 1968) da UnB, ele permaneceu na Comunicação até sua aposentadoria. Inicialmente como professor colaborador, responsável pelas disciplinas de rádio por décadas, chefe/subchefe do antigo Departamento pelo menos em duas ocasiões e, mais tarde, diretor da nova Faculdade de Comunicação (1994-1997).

Avesso a badalações, articulador discreto, foi determinante na definição das diretrizes curriculares das diferentes habilitações oferecidas na graduação e também do rumo político-pedagógico que orientou a criação da pós-graduação em Comunicação. Da mesma forma, atuou em inúmeras “comissões verificadoras” designadas pelo Conselho Federal de Educação para atestar as condições de funcionamento de cursos de comunicação social em todo o país.

Esse gaúcho-brasiliense, torcedor apaixonado do Grêmio, partiu sem dar aviso prévio, inesperadamente, na sexta feira, dia 31 de agosto.

 

Sem currículo Lattes

Bira, como era chamado por todos, foi um acadêmico diferenciado. Quando o conheci no início dos anos 1970, andava sempre com um exemplar do A Universidade Necessária de Darcy Ribeiro (original 1969). Tendo atravessado, como estudante, um período crítico de intervenções que desfiguraram o projeto original da UnB, ele acreditava que a universidade pública deveria ter compromisso com o país e com sua transformação social e nunca hesitou em colocar essa ideia em prática como professor e como ocupante de cargos de direção acadêmica.

Bira foi um militante na luta docente da UnB desde a fundação da ADUnB, a associação de docentes, e também um militante na organização de professores e pesquisadores de comunicação tendo ocupado a vice-presidência da pioneira Abepec – Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa da Comunicação (1973-1975).

Se avaliada pelos padrões predominantes da meritocracia de hoje, sua carreira acadêmica certamente seria considerada “pouco produtiva”. Que eu saiba, ele nunca teve paciência para preencher os formulários e criar um currículo na Plataforma Lattes do CNPq.

Todavia, profundo conhecedor da música popular brasileira, Bira foi mentor do “Projeto Som” que professores e alunos de Comunicação da UnB implantaram na Rádio Nacional de Brasília nos anos 1970 que, à época, passou a tocar em sua programação apenas canções de autores e intérpretes brasileiros.

Por outro lado, um artigo do qual foi coautor (“Crítica das Políticas de Comunicação – entre o Estado, a empresa e o povo”), apresentado no III Congresso da Abepec, realizado em Caxias do Sul, RS, em 1976, à época em que a Unesco defendia as políticas nacionais de comunicação, questionava o papel do Estado e introduzia indiretamente a ideia dos sistemas públicos – em oposição aos sistemas estatal e privado – que mais tarde viria a prevalecer no princípio da complementaridade inserido no artigo 223 da Constituição de 1988.

Um dos organizadores do pioneiro Seminário Latino Americano de Comunicação realizado na UnB em 1975 (ver, neste Observatório, “Um marco esquecido na história”), Bira foi também um dos criadores do Comitê Latino Americano de Pesquisadores em Comunicação Social que, três anos mais tarde, seria transformado na Alaic – Associação Latino-Americana de Pesquisadores da Comunicação.

No último e-mail que recebi dele, preocupado com as manifestações de junho, Bira me recomendava a leitura do texto publicado por Pier Paolo Pasolini  na L’Espresso, em 1968, no qual, contra a opinião da maioria, fazia uma crítica severa ao que considerava “uma falsa revolução de jovens burgueses”.

Por tudo isso e certamente por muito mais que desconheço, o professor Ubirajara da Silva, o Bira, será lembrado por familiares, ex-alunos, colegas e amigos, pelo incrível ser humano que foi, sempre leal, coerente e companheiro. Um professor que trabalhou toda a sua vida na Comunicação da Universidade de Brasília e lutou pela construção de uma universidade comprometida e uma sociedade mais justa.

Uma vida que valeu a pena ser vivida.”

 

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